quinta-feira, 14 de junho de 2012

O papel do músico cristão em um mundo exclusivista


                   O papel do músico cristão deve ser o de tornar as pessoas mais sensíveis e conscientes do mundo sonoro em que elas vivem. Dar a elas a oportunidade de conhecerem na prática que significado tem a música em suas vidas.  Não a música como simples regra de separarmos o que é e o que não é do mundo, mas como arte e ciência propriamente ditas.


            Até agora o que sabemos sobre música dentro de nossa realidade prática das igrejas? Talvez, simplesmente ela seja muito útil no culto cristão, que ela “abrilhanta” os programas litúrgicos das igrejas, que ela seja de responsabilidade e prática maior de um grupo de louvor, ou papel do grupo de louvor levar as pessoas a cantarem louvores a Deus, uma ferramenta de evangelismo, ou até de doutrina.
            É por conta, especialmente de um “brilhantismo”, que infelizmente muitas igrejas pagam salários a “ministros de música” que por si só não dão conta do que fazem, tendo atividades restritas em apenas reger o coral e a congregação nos hinos. O resultado disso é a desigualdade de ajuda de custo entre os “ministros” e os instrumentistas e cantores que voluntariamente se dispõem, porém são sutilmente cobrados a relativamente darem um tempo integral na obra musical. Esta sutileza acontece, muitas vezes, por conta de existir um sistema ou estrutura de um suposto ministério de música em que a igreja está organizada. Não é pretensão deste texto reclamar sobre o direito de ajuda financeira para os que trabalham na área de música, mas mostrar que educando e musicalizando a todos de modo a tornar a igreja livre do ativismo e da centralização da atividade musical em uma minoria de pessoas é um caminho inclusivista.
            Muitas igrejas também exigem a presença de músicas em todos os seus cultos, músicos em tempo relativamente integral, e muitos deles são jovens. Ora, por que será que não vemos grupo de louvor com adultos, idosos?! Música é coisa de jovem? Não parece que tem alguma coisa errada nisso? Tal exigência leva a muitos desses jovens a darem “o melhor para Deus” deixando de cuidar do futuro profissional e da vida familiar, onde a igreja assim deixa de cumprir com seu papel social. Além disso, tal “brilhantismo” favorece a prática de um amadorismo entre os que ficam à frente do trabalho musical na igreja. 
            Se a igreja quisesse músicos em tempo relativamente integral, deveria incentivar a esses jovens pelo menos a se profissionalizarem através do investimento nos estudos – fazendo conservatório, faculdade, no ramo da música – alcançando uma independência econômica, uma carreira brilhante de musicista. Porém, aí é que mora o seguinte risco: “perdê-los” para o trabalho secular da música. São essas as duas faces do jogo: status dos jovens em destaque e da igreja quanto à atração musical dos jovens no culto.  Mas ninguém quer sair perdendo. É nesse ponto que quem sai perdendo é o próprio povo cristão que deixa de receber a educação musical e a musicalização de que tanto necessita.  
            Há um tempo atrás, havia muitos grupos que cantavam uma ou duas mensagens musicais num culto, mas um novo modelo foi aparecendo, de um movimento na música cristã brasileira, um estilo de performance de plataforma, de um palco espiritualizado, cheio de ministrações, de músicas congregacionais. E como se ocorre facilmente o modismo musical em cima das novidades, o denominado “grupo de louvor” acaba surgindo então, sobretudo de uma imitação de comunidades de louvor (Comunidade da graça, comunidade da Vila da Penha, Bíblica da Paz, dentre outras) e sem se refletir ao certo sobre reais motivações de suas origens.
            Dessa forma, a cópia de “um modelo de ministração” de louvor, acabou se estereotipando em alguém que tenha o dom da oratória, o carisma, o talento para tocar e cantar, dentre outras qualidades. Com isso, ficou subentendido que pessoas sem tais qualidades não seriam e nem são aptas para formarem ou participarem de um grupo de louvor. Como aos poucos, tudo referente à música, foi se restringindo ao “grupo de louvor”, o que mais outras pessoas sem perfil para grupo de louvor realizariam no culto cristão? Diz-se que tal grupo deve ministrar o louvor congregacional, mas a grande maioria dos grupos e cantores atuais não se preocupam com a tonalidade de suas músicas, trazendo “desconforto vocal” aos seus ouvintes e quando suas músicas são tocadas pelos grupos de igrejas locais, repete-se o mesmo erro. Sendo assim, o louvor congregacional ao invés de levar a todos a cantarem, passa a ser mais uma apresentação do solista ou dos “dirigentes” de canto na liturgia do culto. Esse desconforto é muito sutil, ocorre pela falta de conhecimento de uma educação musical e de uma musicalização das pessoas.
            O reflexo desse desconforto vocal está muitas vezes refletido na apatia do povo cristão em acompanhar os louvores, na falta de entusiasmo musical e na desafinação provocada pelo descuido de não escolher uma tonalidade adequada a todos. Tudo isso, por sua vez, leva ao membro ou visitante a pensar que seja melhor apenas ouvir os louvores, pois lhe transmite uma sensação de incapacidade, ou seja, que ele não tem os “dons e talentos” que há no grupo de louvor.
            Infelizmente parece que já foi aceito no meio cristão que “Grupo de louvor é para os jovens e que coral é mais para os adultos. Que os jovens são mais talentosos, mais ativos, mais inteligentes, mais fáceis de aprender as coisas novas, que têm mais força para se consagrarem a Deus.” Para isso, toma-se, erroneamente, como base o versículo que diz: “Jovens, eu vos escolhi porque sois fortes”. (1João2. 14).              Porém, consagrar “dons e talentos” tem se tornado uma coisa mágica, pois o simples fato de se estar fazendo o louvor de alguma maneira, parece ser uma confirmação pessoal de consagração.  Não existindo, assim, a conscientização da necessidade de se investir em estudos aprofundados da música, como se essas pessoas “talentosas” tivessem nascido prontas.
            Em contrapartida, o surgimento de grupos de louvor não foi um fato negativo em si mesmo, mas sim a forma como esse se repercutiu na história da música cristã brasileira. O grupo de louvor é uma forma musical que não deve ser vista como algo desapropriado, contudo aproveitado de uma maneira mais inclusivista, consciente e contextualizada à realidade de cada igreja. Mas, para isto, necessário é que se quebre a idéia de que apenas um grupo de pessoas possui a habilidade de louvar a Deus com a música.  Pois, essa idéia se originou pelo fato de se ter tomado uma reflexão distorcida do velho testamento, de que apenas uma tribo, os levitas, fosse única e legitima para o serviço da música no culto. Sendo assim, o nome de “levitas” acabou sendo dado aos musicistas de hoje nas igrejas.  Os músicos e cantores de algumas igrejas recebem este título de “levitas” como uma maneira de dar a eles a exclusividade no culto como sendo os “gênios da música”, enquanto que os outros apenas meros ouvintes da música sacra e gospel. Na verdade, no antigo testamento, os levitas eram responsáveis em promover um ambiente musical a todos e de qualidade. A boa música não era só para a elite, ou para a corte, ou à alta sociedade, mas para todos. (I Cr.13.8). 
            Vale ressaltar que quando Jesus veio, trouxe desde a sua descendência o sinal de uma nova “tribo musical”, a tribo não de Levi, mas a tribo de Judá. (Hebreus7. 14).  O rei Davi, descendente da mesma tribo, foi o primeiro a instituir o ministério de música oferecendo a educação musical a todos, e não apenas aos levitas. Ou seja, o próprio Davi, mesmo sendo de uma outra tribo, foi um músico que promoveu o canto orfeônico reunindo milhares de pessoas para participarem de um único e grande coral. (PRIOLLI, p.112).
            A Bíblia mostra que a partir de Jesus os louvores não são exclusivos apenas dos cantores e músicos “levitas”. (Rm15. 9-11). A exortação de Paulo pode nos dizer muito acerca do aspecto inclusivista da música e poesia cristã, pois falar entre si com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando de coração ao Senhor é realmente um rico referencial neo-testamentário.( Ef.5.19).
         Sendo assim, bom seria que pudéssemos ampliar novas formas de se louvar a Deus com música, sem desprezar aquelas que o povo cristão pratica. Ao se ampliar tais formas, acredita-se que o resultado venha ser uma igreja que tenha suas próprias experiências musicais, unindo jovens e velhos numa mistura de gerações (I Crônicas 25.8), acabando por se tornar mais criativa, mais poética e menos modista; compreendendo a liberdade de uma música singular; não apenas litúrgica, mas, acima de tudo, educativa, terapêutica, social e culturalmente contextualizada.

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