O papel do músico cristão deve ser o de tornar as pessoas mais sensíveis e conscientes do
mundo sonoro em que elas vivem. Dar a elas a oportunidade de conhecerem na
prática que significado tem a música em suas vidas. Não a música como
simples regra de separarmos o que é e o que não é do mundo, mas como arte e
ciência propriamente ditas.
Até agora o que sabemos sobre música dentro de nossa realidade prática das
igrejas? Talvez, simplesmente ela seja muito útil no culto cristão, que ela “abrilhanta” os programas litúrgicos das igrejas,
que ela seja de responsabilidade e prática maior de um grupo de louvor, ou papel do
grupo de louvor levar as pessoas a cantarem louvores a Deus, uma ferramenta de
evangelismo, ou até de doutrina.
É por conta, especialmente de um “brilhantismo”, que infelizmente muitas
igrejas pagam salários a “ministros de música” que por si só não dão conta do que
fazem, tendo atividades restritas em apenas reger o coral e a congregação nos
hinos. O resultado disso é a desigualdade de ajuda de custo entre os
“ministros” e os instrumentistas e cantores que voluntariamente se dispõem,
porém são sutilmente cobrados a relativamente darem um tempo integral na obra
musical. Esta sutileza acontece, muitas vezes, por conta de existir um sistema
ou estrutura de um suposto ministério de música em que a igreja está
organizada. Não é pretensão deste texto reclamar sobre o direito de ajuda
financeira para os que trabalham na área de música, mas mostrar que educando e musicalizando a
todos de modo a tornar a igreja livre do ativismo e da centralização da
atividade musical em uma minoria de pessoas é um caminho inclusivista.
Muitas igrejas também exigem a presença de músicas em todos os seus cultos,
músicos em tempo relativamente integral, e muitos deles são jovens. Ora, por
que será que não vemos grupo de louvor com adultos, idosos?! Música é coisa de
jovem? Não parece que tem alguma coisa errada nisso? Tal exigência leva a
muitos desses jovens a darem “o melhor para Deus” deixando de cuidar do futuro
profissional e da vida familiar, onde a igreja assim deixa de cumprir com seu
papel social. Além disso, tal “brilhantismo” favorece a prática de um
amadorismo entre os que ficam à frente do trabalho musical na igreja.
Se a igreja quisesse músicos em tempo relativamente integral, deveria
incentivar a esses jovens pelo menos a se profissionalizarem através do
investimento nos estudos – fazendo conservatório, faculdade, no ramo da música
– alcançando uma independência econômica, uma carreira brilhante de musicista.
Porém, aí é que mora o seguinte risco: “perdê-los” para o trabalho secular da
música. São essas as duas faces do jogo: status dos jovens em destaque e da
igreja quanto à atração musical dos jovens no culto. Mas ninguém quer
sair perdendo. É nesse ponto que quem sai perdendo é o próprio povo cristão que
deixa de receber a educação musical e a musicalização de que tanto necessita.
Há um tempo atrás, havia muitos grupos que cantavam uma ou duas mensagens
musicais num culto, mas um novo modelo foi aparecendo, de um movimento na música cristã brasileira, um estilo de performance de plataforma, de um palco espiritualizado, cheio de ministrações, de músicas congregacionais. E como
se ocorre facilmente o modismo musical em cima das novidades, o denominado
“grupo de louvor” acaba surgindo então, sobretudo de uma imitação de
comunidades de louvor (Comunidade da graça, comunidade da Vila da Penha,
Bíblica da Paz, dentre outras) e sem se refletir ao certo sobre reais
motivações de suas origens.
Dessa forma, a cópia de “um modelo de ministração” de louvor, acabou se
estereotipando em alguém que tenha o dom da oratória, o carisma, o talento para
tocar e cantar, dentre outras qualidades. Com isso, ficou subentendido que
pessoas sem tais qualidades não seriam e nem são aptas para formarem ou
participarem de um grupo de louvor. Como aos poucos, tudo referente à música,
foi se restringindo ao “grupo de louvor”, o que mais outras pessoas sem perfil
para grupo de louvor realizariam no culto cristão? Diz-se que tal grupo deve
ministrar o louvor
congregacional, mas a grande maioria dos grupos e cantores atuais não se
preocupam com a tonalidade de suas músicas, trazendo “desconforto vocal” aos seus ouvintes e quando suas
músicas são tocadas pelos grupos de igrejas locais, repete-se o mesmo erro.
Sendo assim, o louvor congregacional ao invés de levar a todos a cantarem,
passa a ser mais uma apresentação do solista ou dos “dirigentes” de canto na
liturgia do culto. Esse desconforto é muito sutil, ocorre pela falta de
conhecimento de uma educação musical e de uma musicalização das pessoas.
O reflexo desse desconforto
vocal está muitas vezes
refletido na apatia do povo cristão em acompanhar os louvores, na falta de
entusiasmo musical e na desafinação provocada pelo descuido de não escolher uma
tonalidade adequada a todos. Tudo isso, por sua vez, leva ao membro ou
visitante a pensar que seja melhor apenas ouvir os louvores, pois lhe transmite
uma sensação de incapacidade, ou seja, que ele não tem os “dons e talentos” que
há no grupo de louvor.
Infelizmente parece que já foi aceito no meio cristão que “Grupo de louvor é
para os jovens e que coral é mais para os adultos. Que os jovens são mais
talentosos, mais ativos, mais inteligentes, mais fáceis de aprender as coisas
novas, que têm mais força para se consagrarem a Deus.” Para isso, toma-se,
erroneamente, como base o versículo que diz: “Jovens, eu vos escolhi porque
sois fortes”. (1João2. 14).
Porém,
consagrar “dons e talentos” tem se tornado uma coisa mágica, pois o simples
fato de se estar fazendo o louvor de alguma maneira, parece ser uma confirmação
pessoal de consagração. Não existindo, assim, a conscientização da
necessidade de se investir em estudos aprofundados da música, como se essas
pessoas “talentosas” tivessem nascido prontas.
Em contrapartida, o surgimento de grupos de louvor não foi um fato negativo em
si mesmo, mas sim a forma como esse se repercutiu na história da música cristã
brasileira. O grupo de louvor é uma forma musical que não deve ser vista como
algo desapropriado, contudo aproveitado de uma maneira mais inclusivista,
consciente e contextualizada à realidade de cada igreja. Mas, para isto,
necessário é que se quebre a idéia de que apenas um grupo de pessoas possui a
habilidade de louvar a Deus com a música. Pois, essa idéia se originou
pelo fato de se ter tomado uma reflexão distorcida do velho testamento, de que
apenas uma tribo, os levitas, fosse única e legitima para o serviço da música
no culto. Sendo assim, o nome de “levitas” acabou sendo dado aos musicistas de
hoje nas igrejas. Os músicos e cantores de algumas igrejas recebem este
título de “levitas” como uma maneira de dar a eles a exclusividade no culto
como sendo os “gênios da música”, enquanto que os outros apenas meros ouvintes
da música sacra e gospel. Na verdade, no antigo testamento, os levitas eram
responsáveis em promover um ambiente musical a todos e de qualidade. A boa
música não era só para a elite, ou para a corte, ou à alta sociedade, mas para
todos. (I Cr.13.8).
Vale ressaltar que quando Jesus veio, trouxe desde a sua descendência o sinal
de uma nova “tribo musical”, a tribo não de Levi, mas a tribo de Judá.
(Hebreus7. 14). O rei Davi, descendente da mesma tribo, foi o primeiro a
instituir o ministério de música oferecendo a educação musical a todos, e não
apenas aos levitas. Ou seja, o próprio Davi, mesmo sendo de uma outra tribo,
foi um músico que promoveu o canto orfeônico reunindo milhares de pessoas para
participarem de um único e grande coral. (PRIOLLI, p.112).
A Bíblia mostra que a partir de Jesus os louvores não são exclusivos apenas dos
cantores e músicos “levitas”. (Rm15. 9-11). A exortação de Paulo pode nos dizer
muito acerca do aspecto inclusivista da música e poesia cristã, pois falar
entre si com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando de
coração ao Senhor é realmente um rico referencial neo-testamentário.( Ef.5.19).
Sendo assim, bom seria que pudéssemos ampliar novas formas de se louvar
a Deus com música, sem desprezar aquelas que o povo cristão pratica. Ao se
ampliar tais formas, acredita-se que o resultado venha ser uma igreja que tenha suas
próprias experiências musicais, unindo jovens e velhos numa mistura de gerações
(I Crônicas 25.8), acabando por se tornar mais criativa, mais poética e menos
modista; compreendendo a liberdade de uma música singular; não apenas
litúrgica, mas, acima de tudo, educativa, terapêutica, social e culturalmente
contextualizada.
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